A libertação das mulheres é a desculpa do Ocidente para justificar suas guerras nos países árabes

Sirin Adlbi Sibai, feminista islâmica[1] e pensadora descolonial, acaba de publicar seu primeiro livro, “La cárcel del feminismo” (O cárcere do feminismo), pela editora Akal. Título polêmico e que pode levar a conclusões erradas se não se conhece essa ativista. “Já é hora de levantar de maneira direta e urgente toda uma série de debates que são muito necessários. O título é impactante e esse é exatamente o efeito que com minha teoria quero criar, um impacto que nos faça questionar de uma vez a ordem das coisas. Tomara que sirva para isso”.

La pensadora decolonial y feminista, Sirin Adlbi Sibai

Então, quanto Sirin fala de “cárcere” está fazendo uma crítica ao feminismo hegemônico que, em sua opinião, invisibiliza outros feminismos alternativos, mais distanciados da ótica ocidental e colonial, que foram iniciados pelo feminismo negro e continuados posteriormente pelos feminismos indígena e islâmico. Estes movimentos explicam como o gênero está inevitavelmente atravessado pela raça e pela classe, aspectos que têm sido ignorados pelo feminismo tradicional, branco e burguês.

Sirin falou para o site Público durante a apresentação de seu livro na livraria madrilena Traficante de Sueños. Em suas palavras se reflete o ativismo e o compromisso com um feminismo complexo, que conta com mais afastadores do que apoiadores: o feminismo islâmico a partir de uma perspectiva descolonial. “O pensamento descolonial nos proporciona a possibilidade e oportunidade de pensar o impensado, de imaginar o que foi tido como impossível de ser imaginado. É uma autêntica revolução. Não podemos falar de feminismo e Islã na atualidade sem pensar seriamente em todas as relações e estruturas de poder que constroem os diferentes discursos sobre a questão”.

Para a autora é a hegemonia do Ocidente, o capitalismo e o patriarcado os articuladores da islamofobia atual. “A islamofobia é um dispositivo colonial que sub-humaniza os muçulmanos e a civilização islâmica mediante uma completa rede de instituições discursivas e não discursivas que adotam a forma de racismo cultural. Além disso, a islamofobia está atravessada pelo gênero. Ou seja, não há islamofobia sem gênero”. Neste sentido, a pesquisadora estabelece três processos que o explicam: o primeiro seria ver quem produz essa islamofobia, que seria o patriarcado, entre outros; o segundo, sobre quem se incide a islamofobia, a mulher; e, por último, através do que ocorre a subjugação da mulher muçulmana.

A mulher muçulmana com hijab

Sirin Adlbi usa véu e fala de feminismo, uma imagem que gera um amplo debate dentro do movimento feminista, já que algumas correntes consideram um paradoxo usar o véu e ser feminista, também dentro do mundo árabe. Sob este dilema, Sirin reivindica o uso livre do véu, entendendo as implicações patriarcais que isso pode envolver, mas não mais opressor, segundo sua opinião, do que um manequim 36, o uso de salto ou maquiagem no Ocidente.

Ela também afirma que o que está por trás da proibição do hijab ou sua imposição em diferentes partes do mundo é, no final das contas, o controle patriarcal dos corpos das

mulheres. “No entanto, faz falta aqui a voz das mulheres que com nosso hijab querem resgatar o Islã de manipulações sexistas e reivindicar nosso direito e liberdade de escolhas espirituais, estéticas, filosóficas e epistemológicas do sentido libertador e emancipador que queremos dar a ele. O hijab e seus significados no Islã, ligados a uma ética global de libertação, estão invisíveis entre os discursos coloniais que o convertem em símbolo universal de subjugação feminina e símbolo de anti-modernidade”[2].

É precisamente este foco sobre as mulheres muçulmanas e o uso do véu, segundo a autora, que invisibiliza e legitima outras formas de repressão às mulheres, também no Ocidente. Ela fala do conceito do “selvagem no espelho”, que “devolve aos ocidentais uma imagem muito gratificante deles mesmos, a imagem de mulheres norte-americanas livres, liberais e liberadas, ocultando que em nossas sociedades ‘desenvolvidas’ uma em cada três mulheres sofreram algum tipo de violência machista e que ainda está por desmantelar estruturas patriarcais e sexistas complexas, cuja desarticulação somente poderá acontecer com a destruição e abolição do sistema capitalista global”.

Além disso, “a mulher muçulmana com hijab” representa para Sirin a desculpa dos países mais poderosos para invadir lugares por interesses econômicos e políticos, mas o discurso que legitima esses atos é uma suposta libertação das mulheres. “O discurso que constrói o objeto ‘mulher muçulmana com hijab’ não existe fora da lógica colonial, e tem como função esconder os interesses geoestratégicos e geoideológicos do Ocidente nos países árabes e muçulmanos. Ou seja, vamos ao Afeganistão ou a Mali ‘salvar’ e ‘libertar’ as mulheres muçulmanas, e não para explorar seus recursos, saqueá-los e buscar soluções para a indústria armamentista. A invisibilidade da responsabilidade direta do Ocidente na perpetuação de crises, guerras, pobreza extrema, ditaduras, falta de justiça, direitos e liberdades e opressão generalizada vai afetar primeiramente as mulheres e as crianças”.

Para o começo do fim do capitalismo?

Sirin Adlbi é, também, uma ativista muito vinculada com a Síria. Na verdade, assume-se como ativista sírio-espanhola, opositora ao regime de Assad. A guerra, que já dura mais de cinco anos, produziu a maior crise migratória desde a Segunda Guerra Mundial. Além disso, o papel da União Europeia na questão dos refugiados está sendo mais do que questionada após o acordo a Turquia para devoluções[3].

Mas não é só questão dos refugiados, também o Brexit ou a vitória de Donald Trump…O mundo está testemunhando uma série de acontecimentos difíceis de explicar, e que para Sirin, são uma mostra do princípio do fim do sistema neoliberal. “Todos os acontecimentos, cujo desenvolvimento observamos perplexos, parecem indicar que nos aproximamos cada vez mais do colapso do sistema. E um sistema erguido à base de sangue e opressão, infelizmente só desaparecerá com mais sangue e opressão”.

Tradução de Gabriela Moura, da matéria original publicada pelo site Público.

Notas da tradutora:

[1] Em seu perfil pessoal, a autora esclareceu que não se identifica como feminista islâmica, mas como pensadora islâmica descolonial.

[2] Aqui a escritora explica que o sentido primitivista e opressor do hijab é amplamente utilizado pelo ocidente para moldar uma visão preconceituosa contra muçulmanos e árabes.

[3] Refere-se ao acordo fechado entre União Europeia e Turquia para conter a entrada de refugiados, devolvendo cada um que chegasse pela costa grega, mesmo sobreviventes de guerras civis como a ocorrida na Síria. http://brasil.elpais.com/brasil/2016/03/07/internacional/1457352301_920991.html

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s