Feminismo islâmico: rompendo debates universalistas

Fazendo minhas pesquisas sobre feminismo islâmico me deparo com frequência com pessoas que falam opiniões tão sem sentido que fica evidente que conhecem o islã apenas por meio do que a mídia ocidental filtra. A mais comum é acharem que uma mulher muçulmana não pode ser considerada feminista, pois isso seria incoerente. Também é prática constante a curadoria de notícias sobre violência doméstica motivada por fundamentalismo religioso, como se fosse exclusividade de um determinado povo os fenômenos sociais que tornam alguém fanático a ponto de cometer um crime, isentando o resto do mundo de práticas idênticas.

Antes de adentrar o tema, lembro que o feminismo é, em sua essência, uma luta por emancipação política das mulheres. A partir daí podemos esmiuçar diversos setores que podem requerer debates sobre o direito da mulher: trabalho, direitos reprodutivos, integridade física e psicológica, e por ai vai. Ainda assim, é comum que rebatam tal ideia com o argumento de que a inconstância dessa situação reside no fato de o islã subjugar mulheres – tal como o cristianismo faz, diga-se de passagem.

Pois bem, prossigamos.

Quando comecei a estudar árabe, em 2011,  sempre me questionavam se eu me converteria – oras, se fosse esse o caso e essa a minha vontade, não haveria problema algum e eu não deveria explicações. Mas fato é que não, eu jamais pensei em me converter. A primeira fagulha que me levou a querer uma formação em idioma e cultura árabe foi uma paixão por uma cultura rica.

Acontece que as pessoas ignoram que nem todas as religiões têm uma função única. E não falo isso pela pretensão de qualificar ou desqualificar esta ou aquela crença. Falo porque o ocidentalismo mina as culturas que ele julga inferiores ou primitivas, e o estrago começa por aí.

O islã não é apenas uma religião – com questões a serem debatidas como quaisquer outras credulidades espiritualistas – mas, também, um pilar cultural.

O mundo árabe pode ser dividido, superficialmente falando, pelas eras pré e pós islâmica. O período anterior ao Alcorão foi marcado pela história oral (os Poemas Suspensos – Al-Muallaqat – são o mais fiel exemplo desta época). Foi o islã que possibilitou que tudo isso fosse posteriormente registrado por meio do desenvolvimento da escrita, permitindo, inclusive, a difusão de ciências árabes, tais como Medicina, Filosofia, Astronomia, Literatura, entre outras áreas de conhecimento. A poesia árabe, por sua vez, tinha uma forma própria. Não era lírica, pois não se baseava na contação de sentimentos, tampouco épicas. Como explicou Miguel Attie Filho, no livro Falsafa – A Filosofia entre os árabes:

“O primeiro filósofo árabe foi Al-Kindi, nascido na cidade de Kufa (…) Mesmo não tendo conhecido outra língua além do árabe, Al-Kindi esteve envolvido com as traduções procurando retocá-las, na medida em que seguiu corrigindo e adaptando o vocabulário árabe às obras traduzidas, como foi, por exemplo, da Teologia de Aristóteles. Destacou-se na matemática e na lógica, disciplinas que o guiaram em sua busca da verdade pela filosofia. Os princípios metodológicos de clareza e esquematicidade aos quais se propôs revelam uma clara consciência de que sem as matemáticas e sem a lógica não seria possível atingir a ciência. ‘Ainda que fosse somente por essa consciência metodológica, haveria que situar Al-Kindi junto aos grandes filósofos muçulmanos’. Os títulos de suas obras, chegam a 241, nelas se destacando temas sobre filosofia geral, lógica, música, astrologia, geometria, astronomia, medicina e psicologia. Al-Kindi teve numerosos alunos e um círculo que deu continuidade aos seus estudos.” (p.165)

Na mesma obra, onde estudamos como o idioma árabe foi fundamental para o desenvolvimento da filosofia e da ciência, compreendemos que árabes, islâmicos e muçulmanos não são termos sinônimos, embora sejam comumente tidos assim.

“Apesar de muitas vezes serem tomados um pelo outro, esses três termos não são sinônimos. Certamente podem ter mais de um sentido, dependendo do modo como são empregados mas, geralmente, os encontramos utilizados a partir de uma distinção básica: o termo “árabe” geralmente é utilizado no sentido da língua, da cultura, da política ou da etnia e não no sentido religioso; o termo “islâmico” guarda o caráter da religião, mas também do Estado ou da cultura e não da etnia; o termo “muçulmano”, aplica-se às pessoas adeptas da religião islâmica, mas que não são, necessariamente, árabes” (p.35)

Porém o feminismo islâmico não advém puramente dos conceitos de cultura islâmico. Retornando ao ponto inicial, as demandas das mulheres árabes no mundo contemporâneo esbarram com o ocidentalismo predatório em tempos de imigração compulsória e situação de refúgio. O dilema da mudança brusca de vida, o enfrentamento de uma nova cultura, que não raramente irá rechaçá-la a partir de um ponto de vista derivado do preconceituo religioso e do racismo, o desafio de um novo idioma, entre outras questões, podem ser tidas como algumas das pautas a serem destrinchadas. Rachelle Fawcett apresentou o conceito de feminismo islâmico segundo Margot Badran:

“uma definição concisa do feminismo islâmico é colhida dos escritos e do trabalho de protagonistas muçulmanas por meio de discursos e práticas feministas, que extraem sua interpretação e missão do Corão, buscando direitos e justiça dentro do contexto de igualdade de gênero para mulheres e homens na totalidade de sua existência. O feminismo islâmico explica a ideia de igualdade de gênero como algo que faz parte da noção corânica de igualdade de todos os insan (seres humanos) e reclama a implementação da igualdade de gênero no Estado, nas instituições civis, no cotidiano. Ele rejeita a dicotomia público/privado (a propósito ausente na jurisprudência islâmica dos primórdios, ou fiqh) conceituando uma umma holística na qual os ideais do Corão operam em todos os espaços.”

Talvez a estranheza frente ao termo “feminismo islâmico” advenha do desconhecimento comum a todos nós, usuários de tecnologias que nos colocam em debates tão superficiais na rede, que ignoramos – de forma consciente ou não – as pesquisas acadêmicas e a observação da realidade destas mulheres. Para feministas negras e indígenas, por exemplo, absorver uma literatura descolonizadora já pode soar mais familiar. Da mesma forma, o feminismo islâmico nada mais seria do que enxergar mulheres muçulmanas como protagonistas de sua própria história e cultura, sem a interferência invasiva e colonizadora do feminismo ocidental e universalista.

Um bom exemplo prático é a mídia e a cultura popular ocidental, que desenham o árabe e o muçulmano como uma “coisa” única, a partir de textos violentos que reservam aos povos árabes um local de subalternidade e estigma.

A escritora Irshad Manji, jornalista muçulmana lésbica, confronta a leitura e interpretação do Alcorão como livro final e definitivo do Islamismo. Ou seja, o primeiro passo para assimilar o feminismo islâmico é perceber o preconceito sofrido por esta população. Enfrentar a quebra de nossas convicções é um ponto de vista fora do eixo eurocêntrico que elucida quais são as reivindicações de pesquisadoras que lutam pelos direitos das mulheres muçulmanas, além do fato de respeitar a diversidade dentro deste mesmo grupo, tal como o respeito a não-homogeneidade de outros feminismos, como o feminismo negro, que mesmo com pautas bem claras, apresenta divergência entre suas teóricas, um movimento natural no decorrer de investigações científicas e experiências diversas. Infelizmente, no Brasil os estudos sobre conceitos e objetivos do feminismo islâmico ainda são muito limitados à academia, e pouco debatidos em núcleos mais populares como coletivos e grupos de estudos autônomos. Isto demonstra como ainda estamos engatinhando na própria ideia de interseccionalidade.

É um erro crasso acreditar que mulheres árabes, sejam elas muçulmanas, cristãs, ou não adeptas a alguma religião, são incapazes de falar por si e enxergar o mundo que as cerca. Os debates de gênero podem passear por assuntos diversos, fomentando uma rede de conhecimento mais plural do que parece. É por isso que não faz sentido dizer que o feminismo islâmico não existe ou não pode ser posto em prática. Isto significa admitir múltiplas quebras de paradigmas e a não existência de um consenso dentro dos estudos de gênero – há mulheres árabes que corroboram a ideia de ser impossível discutir direitos das mulheres dentro de uma esfera patriarcal como a religião. E nisso, temos um caminho muito mais complexo do que uma mera opinião pessoal moldada pela reportagem tendenciosa da Fox News.

 

Referências:

ATTIE FILHO, Miguel – Falsafa: a filosofia entre os árabes. São Paulo: Palas Athena, 2002.

Os Poemas Suspensos (Al-Muallaqat) – tradução direta do árabe, introdução e notas de Alberto Mussa. Rio de Janeiro: Record, 2006.

A realidade e o futuro  do feminismo islâmico – http://blogueirasfeministas.com/2013/04/a-realidade-e-o-futuro-do-feminismo-islamico/

 

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