“Sei que é importante debater racismo, mas algumas coisas são um exagero” – ela disse

Faça um exercício de sair do próprio corpo, da própria vida. Imagine que você é uma pessoa que cresceu ouvindo que você tem cara de empregada/presidiário, que você é fábrica de bandido, que leva 9 meses para você “evacuar” um bebê. Você tem uma aparência que as pessoas tratarão de duas formas: partindo do princípio de que você é uma pessoa criminosa OU com a ideia de que sua libido é tão alta que você só pensará em sexo todos os dias, o dia inteiro.  Vão falar pra você usar efeitos em suas fotos que deixarão a sua pele mais clara, irão indicar um alisante “ótimo” para “domar” os fios que naturalmente nascem de você. Sua família é descendente de pessoas trazidas contra a vontade para o país. Sua bisavó foi obrigada a deixar o filho recém nascido passar fome enquanto amamentava o filho de outra pessoa, sob o risco de apanhar até a morte caso se recusasse. A irmã dela teve os seios e os dentes arrancados para que não oferecesse “perigo” ao casamento dessa pessoa com chicotes na mão. As leis locais declaravam que elas não poderiam estudar, nem comprar terras, então a tática de sobrevivência foi continuar servindo. Elas conseguiram alguns pedaços de madeira para construir o que não havia dinheiro para comprar: casas. Mas precisavam estar distantes dos olhos de quem era dono da cidade. As casas foram se amontoando até virarem favelas. Quando elas iam para o centro, à procura de mais trabalho, eram chamadas de lixo, macacas, doença. Ainda sem poder estudar, a solução foi continuar servindo, desde muito cedo. O bebê recém nascido desnutrido pela negligência compulsória cresceu e se tornou uma pré-adolescente, que agora faz a mesma coisa que sua mãe e sua tia mutilada: lava, passa, engoma. Ela começou a trabalhar depois de ter ficado velha demais para servir de animal doméstico para o bebê que mamou no seio da mãe dela.

 

Foto de um zoológico humano, tirada em 1958 na Bélgica. Há menos de 60 anos, existiam zoológicos como este, onde negros, geralmente africanos, eram expostos para as crianças brancas.

Foto de um zoológico humano, tirada em 1958 na Bélgica. Há menos de 60 anos, existiam zoológicos como este, onde negros, geralmente africanos, eram expostos para as crianças brancas.

Universidade Estadual Paulista

Universidade Estadual Paulista

O texto dessa semana sobre as atitudes confusas (eufemismo) de Fernanda Lima – que tem um histórico bem complicado sobre questões raciais – foi chamado preguiçosamente de ‘mimimi’ por pessoas que não tiveram seus familiares usados como animal de estimação na época escravagista, e que não tiveram familiares mendigando o mínimo de condição humana no pós abolição.

Atualmente é possível contar com um bom contingente de pessoas negras combativas que não deixarão passar nenhum detalhe de sua história mal contada pelas escolas.

Até uma década e meia atrás, a falsa calmaria talvez se desse pelos meios de comunicação menos rápidos e eficientes que os de hoje. Os negros em universidades eram raridade, mas figuravam em grande número em posição de servidão.

Joaquim Barbosa, nome evocado por quem se posiciona contra políticas afirmativas, afinal "ele chegou lá com esforço". Teve a oportunidade de cursar o ensino superior e estudar fora do país. A exceção das exceções, foi o primeiro negro a ser nomeado presidente do Superior Tribunal Federal.

Joaquim Barbosa, nome evocado por quem se posiciona contra políticas afirmativas, afinal “ele chegou lá por mérito”. Teve a oportunidade de cursar o ensino superior e estudar fora do país. A exceção das exceções, foi o primeiro negro a ser nomeado presidente do Superior Tribunal Federal.

Eu, particularmente, nunca entendi e possivelmente jamais entenderei a repulsa que tantas pessoas brancas, mesmo as mais espiritualizadas e estudadas, sentem sobre debates raciais. É claro que essas conversas são cansativas. Divertido é sair para tomar sorvete ou ir para a praia. Debates raciais nunca pretenderam ser diversão. São política, uma vez que tratam da vida de uma população inteira, diretamente influenciada pela nossa história e pelas ações aplicadas hoje.

Chamar de mimimi não é só desrespeitoso, é uma demonstração explícita da preguiça de reservar meia hora por dia para refletir além do desejo de trocar de carro ou de uma eventual necessidade de ajoelhar para em deus qualquer.

Trecho do livro “Mulheres negras no Brasil escravista e do pós-emancipação”

Trecho do livro “Mulheres negras no Brasil escravista e do pós-emancipação”

Esse time de pessoas negras que hoje usa as mídias a seu favor, esse grande time de pessoas combativas, não vai aceitar mais ser tratado como um time de ex-escravos. Não existe mais a aceitação de que somos descendentes de seres inferiorizados, aos quais foram reservadas duas ou três páginas do livro de História da escola.

Será que é mesmo tão desnecessário explicar o problema na fala de Fernanda Lima, que se vangloriou por tratar dignamente suas empregadas e depois posou com um segurança negro para mostrar que não é racista? Será que é desnecessário explicar o que a História estrategicamente jogou para debaixo do tapete?

Tinga

A recusa ao debate, não só sobre Fernanda Lima – mera personagem factual de um cenário bem mais amplo – talvez evidencie que essas pessoas combativas finalmente conseguiram se fazer ouvir, ainda que saibamos que se fazer ouvir é diferente de conseguir resultados práticos. E outra evidência talvez seja de que o Brasil realmente não é um país de pessoas racistas, desde que você não inunde a timeline do seu Facebook do seu amigo não-negro com assuntos que até o momento ele fazia questão de ignorar.

Ser racista está nos detalhes. Não é preciso chamar um negro de macaco para exercer poder sobre ele. Este asco às pautas do movimento negro, que jamais diminuíram as condições de vida de pessoas brancas, mostra que, amargamente, ainda dividimos o território com pessoas que preferem que o centro da cidade siga higienizado.

racismo

Ator recebeu ataque racista em massa em sua conta no Instagram

Acho incrível a habilidade que pessoas brancas têm de resumir tudo a mero mimimi ou de expor sua genialidade afirmando que o racismo deixaria de existir caso não fosse mais abordado. Este deve ter sido o raciocínio do século XVIII, quando o racismo não era debatido, mas no lugar das vozes se ouviam chibatas. Sabemos que elas ainda ecoam a cada linchamento de pessoas presas ao poste e a cada criança negra mofando em orfanato.

Onde pessoas brancas ouvem “zZZzZZ”, nós ouvimos “Rá-tá-tá-tá”.

Trecho do livro "Mulheres negras no Brasil escravista e do pós-emancipação"

Trecho do livro “Mulheres negras no Brasil escravista e do pós-emancipação”

Trecho do livro “Mulheres negras no Brasil escravista e do pós-emancipação”

Trecho do livro “Mulheres negras no Brasil escravista e do pós-emancipação”

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s