Minhas impressões sobre o documentário Hot Girls Wanted

Acabei de assistir ao documentário Hot Girls Wanted (Procura-se garotas gostosas), sobre a indústria da pornografia. Sempre que vejo um documentário que mexe comigo penso sobre a importância destes materiais chegarem ao maior número possível de pessoas. Pensei o mesmo quando vi Meninas, sobre gravidez na adolescência, e quando vi Justiça.

Hot Girls Wanted mostra a vida de meninas recém chegadas na indústria pornô, e que atuarão em filmes como “amadoras”, onde fazem o papel de virgens que transam pela primeira vez, sempre muito submissas e inocentes. Uma inocência que beira a idiotia, como se não houvesse nenhuma consciência sobre si mesmas – estou falando sobre as personagens na frente das câmeras.

As garotas chegam até os produtores logo após completarem 18 anos, atraídas por anúncios que buscam modelos e prometem viagens gratuitas até Miami, onde os filmes serão feitos.

Recentes pesquisas mostram que cerca de 40% da pornografia online mostra violência contra mulheres.

Recentes pesquisas mostram que cerca de 40% da pornografia online mostra violência contra mulheres.

anners de propaganda de sites como "18 e Abusada" frequentemente aparecem com destaque em sites de pornô populares

Banners de propaganda de sites como “18 e Abusada” frequentemente aparecem com destaque em sites de pornô populares

Entre as práticas estão o chamado “Forced Facial” ou “Facial abuse”, que são nada mais do que um garganta profunda forçado. Neste tipo de cena os homens forçam seus pênis nas bocas das mulheres com o objetivo de fazê-las vomitar pelo sexo oral forçado e contato do pênis com a garganta. Quando elas vomitam, eles as fazem ficar de quatro no chão, sugar o próprio vômito e cuspir em uma tigela de cachorro. Muitas vezes essas cenas são feitas com as mulheres deitadas de ponta cabeça (corpo no sofá ou na ama e cabeça próxima ao chão) ou ajoelhadas com as mãos amarradas para tras. Estrangulamentos também são comuns. Uma das atrizes fez uma cena dessas por 300 dólares e disse entender como se sente uma vítima de estupro.

Também são recorrentes as inflamações vaginais por atrito violento, e tudo é sempre feito sem preservativo. Os vídeos antigamente eram feitos na Califórnia, mas uma lei estadual proibiu a produção de filmes pornôs sem camisinha, por isso as produtoras migraram para Miami. Camisinhas deixam o filme menos popular e revertem menos dinheiro, consequentemente.

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A “vida útil” de uma atriz desse meio vai de 3 meses a um ano, no máximo.
A palavra “teen” é o termo mais buscado nos sites mais populares, e os acessos contabilizam um número maior que os sites da Disney, da NBA, da CNN e da BBC juntos.

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Existe um consenso de que os atores pornôs precisam ejacular fora, e as atrizes crêem que isso é suficiente para evitar uma gravidez indesejada, já que muitas não tomam pílula também. Mas, em cenas de “cream pie”, ou seja, quando o homem ejacula dentro e o sêmen escorre para fora, há um adicional no cachê da atriz que topa. O adicional é de cerca de 100 dólares, dos quais 40 são reservados para a compra da pílula do dia seguinte.

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Apesar do dinheiro envolvido, isso me soa algo muito aquém do que seria uma emancipação feminina. Mas, ao mesmo tempo, eu não tenho fé alguma no fim da pornografia. Eu não acredito que a oferta e a demanda sobre sexo irão parar. E quando digo isso, quero dizer que precisamos e devemos trabalhar sobre os abusos cometidos, mas que isso não interromperá a produção de material gráfico que aborde a temática sexual.

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O que você vai fazer? Proibir a produção de pornografia, jogar tudo para debaixo do tapete e estimular o estupro clandestino?

O começo desse debate não é tudo tão preto no branco. Primeiro que todas as atrizes são realmente maiores de idade, apesar do forte apelo infantilizador, e não é necessário ser um gênio para associar isso ao fetiche masculino sobre corpos infantilizados, e isso eu não acho que se resolva com uma rubrica em uma determinação judicial. Segundo que a clandestinidade está ai para burlar esse tipo de ação conclusiva. A pornografia “teen” é reflexo da sociedade que enxerga a mulher como objeto, e é nessa realidade que devemos focar. Não estou dizendo que precisamos deixar tudo como está, muito pelo contrário. MUITO pelo contrário. Questionar a indústria pornô, que faz rios de dinheiro estuprando e disseminando doenças é nossa obrigação.

Mas quando você coloca tudo em um balaio único e não investiga a base desse iceberg, você está lançando mão de uma possível solução que será furada mais dia menos dia. Quando eu digo investigar a base do iceberg é entender de onde vem essa demanda, ou seja, o que torna os homens consumidores vorazes do sofrimento sexual, e de onde vem a oferta, ou seja, entender quais são as dificuldades das mulheres que fazem isso por necessidade e também as que fazem porque querem – no meio do filme eu lembrei da Stoya e da Sasha Grey, e o desejo das moças do documentário em se tornarem famosas com a pornografia me remeteu que, talvez, estas mulheres que alegam sentirem-se confortáveis na profissão possam também ser modelo de sucesso para meninas como as protagonistas de Hot Girls Wanted.

Vai fazer o que? Proibir e mandar para a prisão todos os produtores que um dia sairão de lá ou darão um jeito de lucrar com sexo da mesma forma, mas de maneira ilegal, longe dos olhos da Lei e, possivelmente, com a ajuda de algum testa de ferro?

Meter multas exorbitantes a pessoas que podem mascarar as produções sob perfis amadores que “””acidentalmente””” caem na rede?

Ou trabalhar nas questões de gênero que puseram mulheres compulsoriamente no papel de serviçais sexuais, seja na indústria pornô ou até mesmo dentro de casa?

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