Sonhos que não são verdadeiramente nossos, mas são plantados em nós

Todos os dias eu sou bombardeada com propaganda de imóveis em São Paulo. Paulistano tem uma compulsão por imóveis. Digo, aqueles que podem comprar. E se puderem comprar mais de um, melhor ainda, porque ai ele mora em um e aluga o outro a um preço altíssimo, pra poder ser uma fonte de renda segura. E esse desespero faz os preços subirem a níveis surreais.

Segurança. Essa é a principal sensação vendida nos anúncios. Não te vendem um pedaço de terra, não te vendem paredes. Se fosse só isso, qualquer “apê” no Jardins seria consideravelmente acessível a muito mais gente. Por isso não é a construção que é vendida, nem o direito de moradia. É o status e a sensação de segurança. “Se eu puder comprar um apartamento, eu vou sair do aluguel e morar pra sempre em algo que me pertence e ninguém poderá tomar de mim”. É uma ilusão, muita coisa pode acontecer. A gente pode querer mudar de cidade, a gente pode perder tudo em um incêndio, a gente pode morrer de repente sem ter aproveitado muita coisa, porque o dinheiro todo foi para o monte de concreto revestido de tinta colorida e ornamentado com móveis igualmente caros de lojas de nome estranho. “Conceituais”.

Eu passei muito tempo cultivando o sonho de comprar um apartamento o mais rápido possível, de preferência antes dos vinte e cinco anos, porque assim eu teria muito tempo pra pagar.

Todos os dias eu pego um ônibus que passa por algumas avenidas muito movimentadas, e uma delas é a Avenida Paulista. É alto o número de pessoas em situação de rua. Sem querer, me peguei olhando aquelas cenas e fazendo questionamentos mentais. Queremos comprar casa porque não queremos correr o risco de ficar na rua, mas não pensamos nas pessoas que já estão na rua. De maneira egoísta vemos a pobreza, não queremos fazer parte dela e optamos por ignorá-la. Por que estas pessoas não merecem um lugar seguro e confortável para viver também? Por que as incorporadoras vendem um mesmo pedaço de chão a 100 mil em um bairro e 1,5 milhão em outro? Os mesmos 40m². Isso me lembrou de vários fatos.

Lá por maio deste ano me deparei com uma imagem bizarra no Facebook. Era uma denúncia. A construtora Plano&Plano usou uma criança negra como homem placa para propaganda de um de seus lançamentos. Como se não bastasse a sequência de erros (criança trabalhando, condições desumanas de trabalho e um ofício ilegal), o menino negro estava escondido atrás da ilustração de uma pessoa branca, como se quisessem usar a mão de obra barata de um negro mas sem atrelar a imagem de uma pessoa negra à marca. Eu entrei em contato com a Plano&Plano, e me responderam que a empresa responsável pelos homens placa é terceirizada. Fim de caso. Devem ter vendido já todas as unidades, fazendo uma fortuna em cima da exploração de uma criança negra. Crimes do mercado imobiliário que ninguém vê. Alguém desembolsou uma fortuna para manter status e adquirir um sonho à custa da exploração de um ser humano muito mais frágil e com muito menos escolhas.

Racismo pra vender imóvel: nada novo sob o sol

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Em contrapartida foi grande a minha alegria quando descobri a página SP Invisível,porque apesar da tristeza estampada nas histórias e expressões, é bom ver que há gente batalhando para dar visibilidade aos que tem sua voz constantemente calada.

O mercado imobiliário é tudo menos o conto de fadas que eles estampam nos comerciais. Varanda gourmet, churrasqueiras enormes, piscina aquecida, pomar, salão de festa com divisão para meninos e meninas, salão de jogos ricamente equipados. Nada disso é uma benevolência da construtora. Aliás, isso de salão com divisão entre meninos e meninas é bem cafona e sexista.  Além de serem espaços pelos quais se paga muito e se tira bem pouco benefício, estes muros fantasiados de espaços eco-friendly são feitos com o único objetivo: permitir que o proprietário se sinta livre da violência urbana, atingido também pela indústria do medo, e fazer com que os moradores sintam a sensação da superioridade. Se você tem 1,5 milhão para pagar por uma casa, por que usaria apenas um terço disso em um imóvel do mesmo tamanho, mas que não trouxesse junto as palavras “eco”, “gourmet” ou “resort”?

Os CEOs não querem morar no mesmo bairro de suas empregadas. As frequentadoras dos salões caros não querem morar no mesmo condomínio das babás contratadas para fazerem aquilo que elas não topam fazer. Neste ponto eu estou generalizando e economizando linhas, mas é um cenário facilmente observável em cidades como São Paulo: se paga pela manutenção de patamares. Se paga pela manutenção da segregação. E o preço é alto porque as marcas conseguem vender sonhos falsos, a inútil ideia da segurança.

Comprar ou alugar um imóvel é escolha individual, e ambas têm vantagens e desvantagens. Vários são os pormenores que cada pessoa analisa na hora de escolher onde morar e em que esquema morar. Casa, apartamento, pensão, aluguel, compra ou troca. Não importa como a movimentação acontece. Meu ponto aqui é questionar por que alimentamos um ciclo tão cruel e que só tende a piorar, para criarmos “pequenas Europas”, como alguns chamam, no centro e na zona oeste, ignorando completamente a Faixa de Gaza nas periferias, com direito a massacres e banhos de sangue diários. Ignorando também que moradia é direito humano, não mérito de um pequeno grupo e favor para todo o resto.

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