RP escreve a sua história com Gabriela Moura

Quebrando um pouco o padrão de abertura da série] Um certo dia eu [Taís] estava navegando nessa interwebs toda e me deparei com o texto “Eu, ex-cotista, vagabunda da Gabriela Moura. Me identifiquei de pronto, embora eu não tenha sido cotista [mas bolsista via Prouni], por ser também mulher, negra e relações-públicas, razão pela qual eu quis trazer a Gabriela para fazer parte da nossa série. Ela que tem 27 anos, Bacharel em Relações Públicas e atualmente é redatora.

VRP: Por que escolheu estudar Relações Públicas?
Por acreditar no potencial das Relações Públicas para o desenvolvimento local e global. Como no começo eu conhecia bem pouco o que era RP, minha primeira opção na verdade era Publicidade, mas não existia esse curso na UEL. Hoje eu assimilo a função de RP como ponte entre as demais áreas de comunicação, sendo imprescindível para a manutenção dos bons relacionamentos entre as pessoas. Vejam que não digo relacionamento entre instituições e pessoas neste ponto, porque afinal, instituições são feitas de pessoas, e estas precisam usar seu potencial para a construção de organizações (ai sim) mais humanas, realistas e menos frias. gabriela_moura

VRP: Conte mais sobre a sua história com a profissão. Como iniciou sua atuação? O que tem feito? Qual seu projeto de maior orgulho na área?
Meu início foi semelhante ao de muitos profissionais de RP, quase uma coisa protocolar. Fiz estágios que me permitiram crescer muito, entrar em contato com outras áreas e desenvolver minhas potencialidades. Foi no trabalho social, entretanto, que eu entendi uma importância fundamental nesta profissão.

VRP: Conte mais sobre sua pesquisa de vulnerabilidade da pessoa negra.
Meu primeiro contato com este assunto foi no projeto Afroatitude da UEL. Ao final do meu primeiro ano eu entreguei meu primeiro artigo científicoonde eu comecei a engatinhar em um assunto que mais tarde se tornaria uma das principais atividades da minha vida: a união dos esforços da profissão que eu aprendi à realidade que eu vivi ao longo destes vinte e poucos anos.

Na ocasião eu comecei a estudar a história negra londrinense, fui a campo, estive em contato com estas pessoas em situação de vulnerabilidade social e pude contar com o apoio das orientadoras: Marina Nilza, professora do curso de Ciências Sociais e que me iniciou na militância negra, e Zilda Andrade, professora do curso de Relações Públicas, que me ensinou como o processo comunicacional seria importante naquela jornada. A história negra de Londrina até então estava esquecida e abandonada, o que eu fiz foi um grão de areia, mas espero que tenha sido um grão importante para o trabalho de outros pesquisadores da área.

VRP: Você aplica suas habilidades de RP na militância? Como?
O tempo todo. Eu atuo como escritora e publico artigos em alguns sites, como oBlogueiras Negras, com o intuito de ajudar a elucidar questões primárias, como o sistema de cotas, o mercado de trabalho e a situação social das pessoas negras, ou apoiar o aprofundamento destes temas naqueles que já possuem familiaridade com o assunto. Além disso, eu atuo como liderança mobilizadora em um coletivo feminista chamado Coletivo Não Me Kahlo, e sou diretora geral da Sociedade Racionalista, uma organização sem fins lucrativos de divulgação científica, filosófica e de direitos humanos.

VRP: Como avalia a atuação de mulheres e negros no mercado da comunicação?
O problema não é a atuação, vamos dar um passo para trás ai e analisar um cenário anterior: a inserção de pessoas negras no mercado de comunicação. Na minha turma, por exemplo, éramos três. Isso em uma turma de vinte pessoas. Em algumas faculdades simplesmente não há pessoas negras. Se você não apoia e não coopera com sistema de inclusão de pessoas negras em universidades, você não terá profissionais negros ajudando a tornar as empresas mais plurais. Por que volta e meia as empresas cometem gafes racistas? Porque muitas vezes suas campanhas “inclusivas” não passam pelo aval daqueles que estão suscetíveis à violência racista.

Ainda é tímido o número de negros no mercado de comunicação, mas felizmente eu vejo este cenário melhorar, mesmo que devagar. Eu sonho com o dia em que a Publicidade, o Jornalismo e as Relações Públicas parem de fazer vista grossa às pautas negras, tais como: inclusão em universidades e mercado de trabalho, como já disse antes, comunicação de métodos pedagógicos de inclusão, fomento à produção intelectual negra, cobertura de eventos que abordem as problemáticas do racismo, como debates, entrevistas e mesas redondas que busquem conclusões e soluções a estes problemas, apoio à produção cinematográfica, literária e teatral.

Enfim, que estes temas sejam tratados com a mesma importância que os grandes eventos e grandes produções têm hoje. Em resumo, Relações Públicas não pode apenas servir para ajuda aos ganhos financeiros de uma organização. Esta profissão também questiona (ou deveria questionar) o status quo.

VRP: Como enxerga o cenário brasileiro das relações públicas?
O cenário brasileiro de RP parece tímido e fechado. Pode ser uma impressão errada, mas eu tenho uma expectativa maior sobre RP, quero ver os profissionais e as agências dialogando com a comunidade para entender as necessidades de cada local.

VRP: Qual ou quais as pessoas que te inspiram em Relações Públicas?
Eu tenho um carinho especial pela professora Zilda Andrade que me apoiou durante minha atuação no Afroatitude. A Cicilia Peruzzo, por ter dado atenção ao terceiro setor, também é uma fonte de inspiração.

Entretanto, existem outros profissionais que me inspiram na minha atuação de RP, ainda que estas pessoas não sejam formadas nesta área, mas que me ajudam na compreensão e amadurecimento das minhas ações dentro das militâncias negra, feminista e de direitos humanos. São elas: Djamila Ribeiro (filósofa), Daniela Andrade(programadora), Maria Luiza Gorga (advogada), Aruã Alves (cientista social).

Veja bem, nenhuma destas pessoas acima é formada em Relações Públicas, mas isso mostra como a nossa profissão dialoga com as demais. Mas é muito complicado citar pessoas, você sempre tem a impressão de ter esquecido alguém.

VRP: O que você vê como a maior contribuição da profissão para o país, durante todo este período de cem anos?
Com toda certeza as Relações Públicas trouxeram novas perspectivas e possibilidades à comunicação, que até então era feita quase que exclusivamente para comunicação externa e em mão única. A via de mão dupla e as políticas de transparência ganharam força com RP.

VRP: Qual sua opinião sobre o projeto de flexibilização da profissão?
Eu sou completamente a favor de medidas que deem liberdade ao indivíduo. Separar o mercado em nichos fechados não me soa razoável, porque você põe um título acima do talento individual. Esta flexibilização é um excelente primeiro passo, inclusive para tornar a profissão mais popular e poder fazer com que mais pessoas valorizem a atuação do RP. Eu espero que as pessoas beneficiadas diretamente com esta flexibilização possam fazer parte deste intercâmbio de experiências.

VRP: Qual mensagem deixa para os estudantes e recém-formados em Relações Públicas?
Que vejam a profissão além do viés mercadológico. RP tem uma boa característica de ser uma ocupação que dialoga com outras áreas com extrema facilidade, é uma profissão onde você exercita criatividade, olhar para sociedade e estratégia ao mesmo tempo. Mas, infelizmente, algumas dessas características passam para segundo plano quando nos tornamos obcecados por um mercado puramente competitivo. Eu gostaria que os estudantes e recém-formados se lembrassem de que o mundo não é um lugar de recursos infinitos e por isso se torna primordial que cuidemos antes das pessoas, e depois do dinheiro.

Publicado em: https://versatilrp.com.br/2014/11/27/063-rp-escreve-a-sua-historia-com-gabriela-moura/

 

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