Primeira pedra nas discussões sobre racismo: deslegitimação da luta

Falar de racismo não é “exagero” nem “coitadismo”. Reflitam este exemplo simplório, que é algo que lembrei no momento: Minha mãe foi ao mercado com uma amiga, e ambas pegaram um produto que estava na promoção. Uma lata de sardinha com uma garrafa de azeite de brinde, a um preço bem abaixo do comum. Chegando no caixa, pagaram e pouco antes de saírem sentiram um cheiro horroroso. Abriram as sacolas e as latinhas estavam levemente abertas, estufadas, com larvas saindo. Conferiram a data de validada e o produto estava vencido há dias. Chamaram o gerente que devolveu o dinheiro na hora (mas se não tivessem reclamado, ele teria deixado as clientes levarem um produto que não poderiam consumir depois). Elas poderiam deixar pra lá e perder 10 reais cada uma, que pra muita gente não faz muita diferença mas pra ela, que me ajuda a sustentar a casa como costureira autônoma e artesã, 10 reais é fortuna – muita justa. Mas ao reclamar, ela não apenas defendeu um direito próprio, ela mostrou ao estabelecimento que estava ciente deste direito que é de todos os consumidores, deixando claro o absurdo cometido. Desta forma é possível que o mercado repense antes de tentar enganar consumidores novamente. Isso não vai mudar o mercado de alimentos, mas pode ter mudado a atitude do gerente, e se isso aconteceu já foi vitória tremenda. Pois bem, se ela tivesse deixado passar, diriam que foi “boba”, deveria ter feito barraco e o caramba a quatro.
É assim com a luta pelo racismo. Eu luto por mim, pelos meus amigos, pelos filhos dos meus amigos, e por desconhecidos, que compartilham este mundo injusto comigo. É cansativo ouvir, o que as pessoas chamam pejorativamente de “mimimimi”, porque quem reclama disso é porque não sabe o que é sofrer racismo em seus diferentes níveis – da piada aparentemente inocente, à violência física que muitas vezes acaba em morte. Não é coincidência a maioria de mortos jovens ser negra, não é coincidência a maioria pobre ser negra, não é coincidência todos os pequenos desgostos diários: ser barrado em porta de banco, ser impedido de entrar num prédio de luxo onde mora algum amigo seu, mesmo que outros visitantes não tenham passado pelos mesmos “sistemas de segurança”. Não é algo sem importância chamar uma criança de macaco ou cabelo de bombril. A mácula na saúde mental de um ser em formação é tremenda, e perdura por anos – acreditem, sei o que estou dizendo.
Deslegitimar uma luta por direitos, achando que queremos holofotes e privilégios é uma visão simplista e cruel do meio em que vivemos. Vocês acham que a gente quer MESMO precisar dar murro em ponta de faca todo dia?
Não é “questão de gosto” as mulheres negras serem preteridas em relação às brancas. Gosto não está no DNA, é cultural. Por séculos, negros têm sido vistos como menos bonitos, menos capazes. Se vocês fossem japoneses, teriam outros gostos, se fossem belgas, teriam outros gostos, se fossem neo-zelandeses, teriam outros gostos, se fossem marroquinos, teriam outros gostos. Então não. Não é uma desculpa “questão de gosto”. E não, você não é obrigado a achar mulheres negras bonitas, você é convidado a rever seus preconceitos TÃO enraizados que nem se nota. Usar a racionalidade pra rever a própria personalidade.
A luta contra o racismo NUNCA colocou negros como superiores a brancos, então por que raios este medo de apenas respeitar quem luta pela própria vida?
Vitimismo e Exagero são só as palavras usadas à exaustão por quem não tem um mínimo de empatia por aqueles que não são exatamente iguais a eles. Ou, aqueles que por nunca terem passado situação semelhante, não enxergam a necessidade de coibir atitudes racistas. Participem de debates e vejam a raiz do problema, entendam que existe um grupo grande composto por outros seres humanos que apenas querem viver em paz.

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